De US$ 100 bilhões a US$ 4,7 bi: as lições deixadas pela BlackBerry
O fim da era BlackBerry não aconteceu após a companhia anunciar o possível acordo com a Fairfax Financial, onde 4,7 bilhões de dólares tornariam a fabricante canadense em uma empresa privada. As coisas começaram há alguns anos.
Em 2007, antes do lançamento do iPhone, a até então RIM valia mais de 100 bilhões de dólares. Ai, então, Steve Jobs lançou o iPhone 3G e as coisas começaram a mudar significantemente. De lá para cá, a companhia canadense tentou segurar as pontas de várias maneiras, mas viu o seu reinado começar a se diluir com a chegada do dispositivo que reinventou a forma de pensar em telefonia e internet.
Durante os anos de 2008 e 2010, a BlackBerry se segurou bem dentro do mercado corporativo, pois a Apple começava a se tornar o monstro por trás da revolução do consumo dentro das empresas. Pode-se facilmente dizer que Jobs criou a consumerização e, assim, a necessidade de adaptação e “legalização” do Bring Your Own Device (BYOD). Não atuou sozinho, claro, mas inseriu uma coisa no mercado chamado escolha: poder escolher algo longe do mundo BlackBerry. As pessoas não queriam mais que o celular pessoal fosse igual ao corporativo.
Após o lançamento do iPad e do crescimento dos dispositivos baseados no Android, do Google, no ano de 2010, a figura mudou de posição violentamente. O mundo bipolarizou entre iOS e Android, com a Samsung se tornando a grande rival da Apple no alto consumo.
Toda essa onda não somente machucou a BB, mas também acertou em cheio a Nokia. Porém, a companhia finlandesa conseguiu uma sobrevida tremenda com o criticado Windows Phone dentro dos mercados emergentes. Diga-se de passagem, a Microsoft comprou a Nokia por quase 3 bilhões de dólares a mais que a FairFax abocanhou a BB.
Embora hoje ainda conte com uma participação interessante dentro de organizações governamentais nos Estados Unidos e até mesmo Brasil, os pouco mais de 2,9% de participação de mercado da BlackBerry (imagem abaixo) em todo o mundo mostram a derrocada da marca, que um dia foi sinônimo de exclusividade.
Se tornar uma empresa privada tira o peso de Wall Street das costas, pois a pressão por expectativas e anuncio de ganhos, lucros, perdas e tudo isso que o mercado financeiro ama já não mais é necessário ser divulgado. É uma empresa de dono, que pode não revelar o que acontece dentro de casa. Isso pode significar uma dúvida ainda maior, uma incerteza até mais generalizada – mas dá fôlego para tentar algo novo, seja lá o que isso signifique a essa altura do campeonato.
A compra da BlackBerry por US$9 a ação, embora signifique um bônus, mostra a queda de valor da companhia no mercado. Em 2009, a companhia valia mais de 100 bilhões de dólares, como aponta esse gráfico do Mashable, até começar o declínio:
Tenho que ser muito sincero: eu tentei muito me manter no mundo BlackBerry, principalmente após o lançamento do BlackBerry 10 e do Z10, que são muito bons, tanto em desempenho quanto em experiência de uso. Mas a falta de aplicações pesa. Outro ponto: as aplicações não tão bonitas quanto as do iPhone e do Android, e isso chateia um pouco. Não somente isso, após três meses, os aplicativos começaram a dar uma série de erros. Além de não ter força para brigar, ainda falta uma vontade dos desenvolvedores do Twitter, LinkedIn, Facebook, entre outros, em ajudar o mundo a sair da bipolaridade iOS e Android.
O que tudo isso ensina para empresas num geral:
1 – Não perca o passo da inovação. Não existe uma cadeira confortável o suficiente para você se acomodar. A BlackBerry acreditou que a Apple iria falhar e que os smartphones sem teclado iriam ser um tiro no pé. O feitiço virou contra o feiticeiro. Não seja prepotente. Observe o que acontece ao redor e esteja sempre próximo do que o mercado americano chama de “Next Big Thing”.
2 – A ameaça vem de baixo. As rupturas no mercado de tecnologia não dificilmente são feitas por empresas que vêm de baixo, ou seja, companhias bem menores das dominantes do cenário. Assim foi com Amazon, Salesforce, Apple (em smartphones) e assim sempre será. Nunca subestime uma companhia menor que você, pois exatamente por ser menor e ter menos complexidade é que elas ganham clientes, mercado e te dão dor de cabeça.
3 – Faça direito, sem pressa. O lançamento do tablet PlayBook foi um fiasco. O hardware não estava terminado, pois parecia um grande pedaço de tijolo, pesado e sem aplicações suficientes para ampliar a experiência de uso. Uma vez que se vê atrás no mercado, não adianta acelerar o processo e não atender às necessidades dos clientes e dos consumidores em geral. Não dá para saltar etapas, as coisas devem ser feitas da forma correta para que, lá na frente, os erros não tornem seu projeto um fracasso envolvo em grandes expectativas.
4 – Velocidade é necessário. Uma coisa é atropelar as etapas e fazer os movimentos de forma acelerada apenas para poder fazer parte de um segmento de mercado. Outra coisa é pensar rápido e saber fazer as mudanças necessárias para deixar sua companhia apta a acelerar da forma correta. Velocidade só é válida se dosada com muita inteligência e foco.
Obviamente, os erros são comuns e necessários para a evolução de uma companhia. Mas a sucessão de erros pode causar danos irreversíveis.
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