Batata quente: para onde vai o mercado de hardware no Brasil e no mundo?
Antes de optar por fechar capital, Dell aventou possibilidade de separar unidade de computação pessoal do resto dos negócios. HP levantou a mesma iniciativa dois anos antes, seguindo decisão bem-sucedida da IBM. Mas e agora?
2005: IBM vende sua área de computação pessoal para a Lenovo. A ideia era se focar no mercado de soluções, com menos apelo a produtos do tipo commodity e direcionamento a tecnologias com maior margem. 2010: a HP anuncia spinoff dessa mesma área, com a ideia de fugir de um mercado com ganhos cada vez mais apertados. 2012/2013: Dell anuncia que fechará capital. No documento encaminhado à SEC (a Comissão de Valores Mobiliários norte-americana), a companhia detalha que cogitou separar sua área de computação como alternativa à medida.
O mercado de computadores pessoais se configura em um desafio. No Brasil e no mundo, as vendas de PCs caem. E a pergunta que fica? Até quando o integrador de hardware e o distribuidor de volume vão aguentar?
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A discussão sobre o fim da era do desktop voltou com força nas últimas semanas. Movimentações no mercado global e números que apontam queda de vendas no Brasil e no mundo trouxeram o tema novamente à mesa de debate. Mas apesar da descrença de alguns analistas e fãs da mobilidade sobre o futuro desse produto, o PC de mesa ainda parece ter fôlego para enfrentar esse embate por mais algum tempo.
“Um dia o desktop irá morrer, mas isso ainda pode demorar alguns anos”, aponta o Chief Operating Officer da fabricante Megaware, Camilo Stefanelli. Ele se diz fã do produto, mesmo com tantas novidades alternativas, como tablets, smartphones poderosos e novos conceitos como o all-in-ones (considerado um novo passo do desktop), e-readers, ultrabooks e, ainda, os híbridos, que combinam ultrabooks e tablets. “Eles conseguem ser simples, baratos e poderosos, o que cai como uma luva nos países emergentes”, pondera.
O assunto parece mesmo longe de ter um final. Cada número negativo sobre as vendas de PCs é seguido de resultados positivos em alguns fabricantes ou regiões do mundo. Ao mesmo tempo, algumas decisões estratégicas ainda mostram que o computador de mesa tem sobrevida garantida.
Veja a Lenovo, por exemplo, que comprou a divisão de negócios da IBM em 2005. Na época, especulou-se que a aquisição era a prova definitiva de que as margens de lucro haviam caído e a fabricação e venda iria interessar cada vez menos às empresas. Até a Lenovo iria seguir a IBM e se preocupar em trabalhar mais com serviços, software e devices móveis nos anos que se seguiriam , em vez do novo integrante de seu portfólio.
Metade da profecia de fato ocorreu. Atualmente, a empresa vende notebooks, ultrabooks, all-in-ones e híbridos. Porém, os PCs continuam destacados na empresa e a grande virada para serviços ainda não ocorreu. A companhia ainda comemorou os resultados estrondosos do último trimestre de 2012, quando alcançou a marca de 9,4 bilhões de dólares - resultado impulsionado por mercados emergentes como América Latina e Ásia. Foi o 15º trimestre consecutivo de crescimento superior à média da indústria.
As margens parecem não interferir também. “Não sofremos nenhum tipo de queda nas margens de vendas”, relata Stefanelli. Para ele, as empresas estão mudando o portfólio conforme as necessidades dos consumidores, e isso atualmente envolve tanto PCs como dispositivos móveis. Novos modelos de desktop focados em nichos garantem margens maiores e seguir a tendência dos novos dispositivos garantem o lucro total.
Assim, o fim do PC continua dependendo do ponto de vista. E o Brasil pode ser um lugar seguro para sua sobrevivência. “Nem sempre uma tendência que aparece com força em países desenvolvidos chega da mesma forma em outras regiões”, aponta Camila Pereira Santos, analista do IDC. Para ela, há mais fatores que indicam boas vendas do que o fim de uma era.
E não são peculiaridades desconhecidas, elas estão evidentes. A principal é o aumento de renda de famílias da classe D e E nos últimos anos no Brasil. Esses novos consumidores não saíram imediatamente às compras de informática como se pensava. Eles foram seduzidos primeiramente pelo consumo de subsistência (comida, moradia, roupas, etc). A queda do Imposto de Produtos Industrializados (IPI) e do preço de eletrodomésticos de linha branca e carro também ocupou o orçamento dessas famílias nos últimos anos.
Mas a tendência é que elas comecem a pensar em computadores para estudo, diversão e demais serviços que já estão maduros na internet, como banking, redes sociais e consumo de vídeo e música. “Quase 50% das residências brasileiras não têm computadores e o desktop ainda é a primeira opção para elas devido ao preço baixo, confiabilidade e facilidade de uso”, destaca Camila.
A briga dos números x comportamento
É por isso tudo que mesmo os últimos números divulgados sobre o mercado não esfriam o otimismo da indústria. Em março, a consultoria IDC indicou que houve uma queda de 2% nas vendas brasileiras. Com isso, o País passou para a quarta posição no mundo. Notebooks e ultrabooks foram mais vendidos do que desktops. Cerca de 8,9 milhões para o primeiro e 6,6 milhões para o segundo, totalizando 15,5 milhões em 2012.
O quarto trimestre, que costuma ser mais aquecido em vendas com o Natal, não teve o resultado esperado. Foram comercializadas 3,7 milhões de unidades, um resultado 8% inferior ao terceiro trimestre. Nesse período, 41% foram desktops e 59% portáteis. No consolidado do ano, os desktops tiveram queda de 12% em relação a 2012.
Mesmo o desastre do primeiro trimestre nas vendas mundiais não desanima fabricantes. O resultado foi o pior dos últimos 20 anos. Nos primeiros três meses deste ano foram vendidos 76,3 milhões de computadores pessoais, marca 14% menor na comparação com o mesmo período de 2012, segundo números globais do IDC.
Enquanto isso, os tablets apresentaram a maior taxa de crescimento. Foram 3,1 milhões de unidades vendidas e um aumento de 171% em relação a 2012. E para piorar, com a queda e o total de 15,5 milhões de PCs vendidos, o Brasil voltou a ocupar a quarta colocação do mercado mundial atrás de China, Estados Unidos e Japão.
Mas é aí que os números negativos começam a ser relativizados. A primeira análise é óbvia. O mercado de tablets cresce mais porque parte de base instalada menor. Qualquer aumento de um milhão em vendas é percentualmente maior para tablet do que para desktop. Já a segunda percepção é mais complexa. Se o Brasil foi ultrapassado por países desenvolvidos, onde a tendência do fim do desktop é mais forte, algo estranho ocorreu.
Na verdade foram várias forças conjuntas e até catástrofes naturais que afetaram o mercado brasileiro. E todas tendem a ser revertidas. A primeira é a prioridade que as famílias deram às compras de linha branca e carro. Outro fator importante é que os produtos não tiveram a queda de preço esperado em 2012 devido a uma enchente na Tailândia, que afetou as indústrias de insumos para computadores mundialmente.
O estoque de HD ficou vazio em vários países e as vendas diminuíram em 3,8 milhões imediatamente após o desastre. Foram meses até a recuperação.
Tudo isso reverteu a tendência de boas vendas que se consolidava desde 2009, com aumentos de 12% a 15%. “A previsão para 2012 era de um ano bom, mas essas variáveis tiveram impacto muito grande”, lembra Camila. E com tantos problemas, quedas anuais de 2% no mercado local e 4% no mercado mundial podem mesmo ser muito pouco para indicar o fim do PC.
Dois mundos diferentes
Fabricantes trabalham com a certeza de que, aos olhos do consumidor, o desktop e os tablets são dispositivos diferentes. O primeiro é multiuso e ideal para produção de informação e traz mais facilidades para quem inicia sua vida digital. O segundo é sensacional para consumo, mas na hora da produção de informação, preço e conveniência de manutenção, derrapa em vários aspectos.
Essas características dissolvem boa parte das expectativas de substituição de um pelo outro. “O desktop é compartilhado por toda a família e, com isso, ainda tem status na casa. Já tablets e smartphones são mais individuais”, analisa o gerente de produtos da fabricante Daten, Carlos Girão.
A empresa vem navegando nas novas ondas de substitutos do desktop ao mesmo tempo em que não deixa de lançar novas máquinas de mesa. “Certamente haverá um fim do desktop, mas no momento ele está passando por uma transformação e o impacto dos tablets não foi tão grande quando o esperado”, alerta.
Além das residências, outro mercado que deve impulsionar a venda de PCs muito em breve é o corporativo. Isso deve ocorrer, segundo fabricantes, porque há uma pressão para a troca de equipamentos. Ela não ocorreu no ano passado por uma ambiguidade do mercado de tecnologia. Como os computadores tornaram-se mais robustos e confiáveis, a vida útil dessas máquinas aumentou. Elas têm suportado bem as últimas atualizações de sistemas nas companhias sem demandarem upgrade. Mas isso está perto do limite.
O mercado corporativo é a saída almejada pela Dell, agora com novos rumos a serem decididos e uma grande transformação a caminho. Em fevereiro, a empresa anunciou que será comprada pelo seu fundador, Michael Dell, e o fundo de investimentos Silver Lake. Uma parte da negociação será suportada com dinheiro da Microsoft. Com isso, a empresa deixará de participar da bolsa de valores.
A Dell demorou cinco meses para alinhar essa decisão e já anunciou que pode demorar mais três anos para uma completa transformação do negócio. Mas não há nada sobre o fim ou venda da divisão de PCs. A ideia foi até analisada durante as definições de saída da bolsa. Mas a empresa decidiu permanecer como fabricante do produto. Em uma carta enviada à Comissão de Valores americana, órgão que controla o mercado de ações, a Dell deixou claro que foi apenas uma análise sobre possíveis caminhos a serem tomados.
O futuro da Dell parece estar intimamente ligado aos PCs e como eles se conectam com o novo portfólio da marca. Um anúncio recente da Silver Lake mostra que o investidor está entusiasmado com as possibilidades do mercado corporativo onde a união de computadores com as quase 30 aquisições recentes feitas pela Dell de empresas de software, redes, segurança de dados e serviços dará novo impulso às vendas.
A HP é outra empresa que ameaçou desfazer-se da linha de desktops e voltou atrás. A hesitação trouxe alguns arranhões à sua marca. Em agosto de 2011, o então CEO, Leo Apotheker, deixou vazar ao mercado que a separação da área do restante da companhia era inevitável. Essa e outras decisões controversas impactaram negativamente as ações e o afastaram do cargo. Em outubro, a nova CEO, Meg Whitman, reforçou a continuidade dos PCs da marca. A decisão agradou o mercado e as ações subiram no mesmo dia.
Com idas e vindas de números e decisões estratégicas de fabricantes, o desktop continua firme. Principalmente em mercados como o brasileiro, ele ainda é bem aceito por consumidores e há oportunidades de vendas dentro das corporações. Assim, a único sinal confiável da morte dos PCs será quando consumidores e empresas usuárias disserem que querem que ele realmente morra. Por enquanto isso não ocorreu.
Quando o fim do desktop chegar, esteja próximo do parceiro
Com fabricantes ampliando a oferta de produtos, mas ainda apostando no desktop, os canais precisam ficar cada vez mais próximos para se adequar às novas estratégias. Quem vendia apenas PC de mesa hoje pode vender tablet, smartphone, all-in-one, ultrabooks e e-readers. “A proximidade garante a sobrevivência quando o fim do desktop chegar e facilita ações comerciais e de marketing”, diz Girão, da Daten. Ele ressalta que não é só o produto que está mudando. “O consumidor adquire novos hábitos e precisamos estar atentos a isso”, comenta.
A distribuidora Ingram Micro também reforça a necessidade dessa aproximação. “A empresa está em constante contato com os fabricantes de PCs e pronta para mudanças de estratégia e de mercado que podem surgir com novos produtos ou serviços que mudem a relação do usuário com o acesso à informação”, ressalta o diretor de vendas de commercial & consumer markets da unidade brasileira, Diego Utge.
Mas, por enquanto, só conversas e nada de desespero com o fim do desktop. “Por enquanto não trabalhamos com a hipótese do fim do PC porque acreditamos que é um mercado que ainda tem muito potencial”, afirma Utge.
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