27/01/2011

A maioridade do NavegaPará

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Wireless Mundi - Nº 5 - Set 2010

A segunda fase do programa de inclusão digital do governo do Pará, em implementação, marca o início de uma nova etapa nas aplicações, restritas na primeira fase ao uso das Tecnologias de Comunicação e Informação (TICs) nos serviços mais convencionais nas áreas de educação, saúde e segurança pública, e aos cursos de informática básica nos infocentros. “As instituições começaram a perceber as potencialidades do uso das tecnologias e começam a particularizar as aplicações”, diz Renato Francês, presidente da Empresa de Processamento de Dados do Estado do Pará (Prodepa), executora do projeto NavegaPará, que tem em sua concepção o uso de tecnologia sem-fio para levar a internet para todo o estado.

As novas aplicações em desenvolvimento vão permitir o monitoramento da produção pecuária no estado e do meio ambiente, a partir de sensores instalados na rede do NavegaPará, que emitirão sinais para o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), antes que as queimadas tomem uma proporção maior e sejam detectadas por satélite. A aplicação vai captar, por exemplo, uma mudança brusca de temperatura, em geral ocasionada por uma queimada, permitindo ao Inpe coletar informações de centenas de pontos simultaneamente. O acordo com o Inpe foi firmado a partir de uma parceria com o Ministério da Ciência e Tecnologia, que criou o Centro Regional de Belém. Desde julho, a unidade passou a ter conexão pelo NavegaPará.

“Queremos unir a infraestrutura do NavegaPará com o know how do Inpe para um melhor controle ambiental”, diz Francês. Na área pecuária, o governo do estado criou este ano um cadastro ambiental rural para monitorar o ciclo de vida da produção de gado. A rede do NavegaPará é usada pelo produtor para cadastrar seu rebanho – o cadastro passou a ser uma exigência para a obtenção de licenças no âmbito do estado. Ao monitorar a mobilidade do rebanho, o governo saberá se há produção ilegal na pecuária.

Iniciado em 2007, o programa NavegaPará já cobria 26 cidades digitais no começo de 2010, com 108 infocentros instalados. Em julho deste ano, o governo assinou dois convênios com o Ministério do Planejamento, no total de R$ 12 milhões, resultado de dois editais, um que selecionou Belém para sediar o Polo Regional Norte de Capacitação de monitores da região e, o outro, para a instalação de infocentros pelo programa Telecentros.Br. Com o aporte do governo federal, o estado planeja encerrar 2011 com 450 infocentros em funcionamento (este número inclui as unidades do NavegaPará e as unidades do Telecentro.BR). Assim, os 143 municípios do estado terão pontos públicos de acesso a internet em 2011.

Pelo convênio, os equipamentos (computadores e mobiliário) para a montagem dos infocentros serão comprados diretamente pelo ministério e repassados ao estado. A conectividade será feita pelo NavegaPará nas cidades cobertas pela infovia estadual e por conexões do Gesac (programa de conectividade do Ministério das Comunicações) naquelas onde a rede do estado não chega.

A estrutura de infocentros do NavegaPará será usada para cursos de capacitação para toda a região. Para elaborar o edital – que selecionou Belém como polo regional –, a Prodepa formou um consórcio com a Universidade Federal do Pará (UFPA), a Universidade Estadual do Pará (UEPA) e a Universidade Federal Rural da Amazônia. O consórcio, credenciado como Pólo Regional Norte de Capacitação, será responsável pela formação dos agentes de inclusão digital (monitores e conselho gestor) de todos os infocentros do programa Telecentros.BR da região. A estimativa é de formar 4.800 monitores dos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. Nesse treinamento, os monitores serão estudantes de graduação das universidades e o programa prevê, além da informática, o acompanhamento pedagógico.

- Cidades digitais:

As 62 cidades por onde passará a rede NavegaPará até o final deste ano cobrem cerca de 70% da população do estado, superior a 7 milhões de pessoas. Em todas as cidades onde a rede já foi implementada, o governo assina convênios de cooperação com as prefeituras, que podem se conectar pela infovia do estado. O serviço também fica disponível para as câmaras municipais, delegacias e centros de referência e assistência social. Em alguns casos, o acesso é levado também para escolas municipais.

No âmbito do estado, a rede liga as secretarias, as instituições de ensino federais e as estaduais e todas as escolas públicas mantidas pelo estado naquele município. O “pacote” de conectividade inclui sempre um ponto de acesso público (em geral com a antena instalada numa praça pública) e dois infocentros.

A concepção do projeto também envolve a comunidade local. Os infocentros são instalados junto a entidades de classe – associação de moradores, paróquias, Corpo de Bombeiros etc. Essa entidade constitui um comitê gestor, que passa a ser responsável pelo funcionamento do infocentro e pelos cursos ali realizados.

Os cursos ministrados têm sido restritos a informática básica (Linux e BrOffice). Em algumas cidades, como em Santarém, com dez infocentros, as iniciativas foram além e são realizados cursos para crianças de seis a nove anos, o Hacker Mirim, que ensina linguagem de programação e jogos educativos. Tem ainda o Melhor Idade Digital, para os cidadãos acima de 60 anos. Em Santarém, a inovação se deve a experiência dos gestores como Tarcísio Ferreira, que há oito anos trabalha com a informática como ferramenta para inserir na sociedade jovens em situação de vulneralidade. Ferreira foi um dos fundadores, em 2002, do projeto Puraqué, criado num dos bairros mais violentos da cidade. “A informática foi um chamariz para atrair esses jovens”, conta Ferreira. Com o apoio do Instituto Luterano de Ensino Superior de Santarém, o Puraqué ganhou corpo e a informática passou a ser usada para se trabalhar temas da cidadania.

- Acesso livre:

Todos os infocentros têm um período para acesso livre, momento em que as crianças e jovens que não têm computador em casa fazem a festa navegando pelas redes sociais (o Orkut é a preferência de 100%), participando de jogos on-line ou assistindo a shows de suas bandas de música preferidas. Em Igarapé-Açú, cidade com 35 mil habitantes, a 118 km da capital, enquanto as técnicas Maria Luciana Lima da Silva e Maria Serrate usavam o infocentro Mappi (Movimento Articulador de Políticas Públicas) para pesquisa, as crianças aguardavam sua vez de usar um computador para acessar suas salas no Orkut. Recém- inaugurado, o infocentro Mappi tinha, em julho, 104 alunos inscritos para o curso de informática com início marcado para o dia 8 de agosto. Nessa unidade, Maria Serrate poderá também fazer um curso superior a distância, se for contemplada com a bolsa de estudos solicitada ao ProUni, para custear o curso de administração da Universidade Paulista.

Na última semana de junho os monitores estavam sendo preparados para os cursos marcados para iniciar em agosto, em cerca de dez novos infocentros. Os monitores, selecionados pela Secretaria Estadual e Ciência e Tecnologia, com base em análise curricular, foram treinados pelo técnico em rede de computadores da Prodepa, Emmanuel Filho.

“O curso, com duração de 40 horas ensina comandos básicos de informática, Linux e BrOffice, além de orientar na manutenção do infocentro, preparando o monitor para resolver pequenos problemas e acionar o suporte em casos mais complexos”, conta o instrutor. Pode se candidatar a uma vaga de monitor (4hs/dia de trabalho) qualquer aluno, mas é dada preferência pela contratação de um monitor que seja da própria comunidade onde está instalado o infocentro.

O treinamento foi dado no infocentro instalado no Corpo de Bombeiros de Santa Isabel, cidade da Região Metropolitana de Belém. A unidade foi inaugurada em maio deste ano e, de acordo com o capitão Elias de Lima Rocha, do 12º Grupamento de Bombeiros Militar, a corporação também se beneficiou, com um link do NavegaPará. Segundo ele, a instituição usava antes um modem da Oi, com navegação lenta e instável. “Ganhamos em qualidade e estamos agora ligados com Belém, com apoio operacional e de logística, ou seja, ganhamos no tempo resposta”, atesta o capitão Rocha.

Sua unidade cobre uma área de dez municípios e mantém um projeto social, o Escola da Vida, voltado a jovens carentes. São atendidas 300 crianças, entre dez e 14 anos – a maioria vive apenas com a mãe, numa família que sobrevive com o Bolsa Família. O curso extra curricular dura dois anos e passa conhecimentos gerais – de primeiros socorros a música, além de reforço na alfabetização e esportes. “É uma oportunidade para que tenham conhecimento e façam uma escolha melhor na vida”, sintetiza o capitão Rocha. Com o infocentro, os alunos terão curso básico de informática e não veem a hora de também ser incluídos no mundo digital.

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